A vitória de Lula da Silva: um triunfo da democracia e um novo capítulo para o protagonismo internacional do Brasil
Segundo o Embaixador Qais Shqair, Lula retorna ao centro do debate internacional e reposiciona o Brasil no cenário global.
Redação Diplomacia Business
28/10/2026 · 12h06

Por Embaixador Qais Shqair Ex-embaixador da Jordânia
A reeleição do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva representa muito mais do que uma vitória eleitoral no cenário político nacional. Suas implicações alcançam o fortalecimento das instituições democráticas, a recuperação do prestígio internacional do Brasil e o reequilíbrio das forças políticas na América Latina e no cenário mundial.
Em um contexto marcado pela polarização interna e pelo agravamento das tensões internacionais, o retorno de Lula à Presidência oferece ao Brasil a oportunidade de consolidar sua resiliência democrática, recuperar sua influência diplomática e reafirmar seu compromisso com uma ordem internacional mais equilibrada, inclusiva e representativa.
Para compreender a dimensão desse resultado, é necessário examinar suas repercussões em três frentes interligadas: a conjuntura política interna, as relações internacionais do Brasil e o relacionamento do país com o mundo árabe.
Democracia sob pressão: desafios internos e polarização política
No plano interno, a vitória de Lula pode ser interpretada como uma reafirmação da confiança nas instituições democráticas brasileiras e da disposição do eleitorado de preservar a autonomia política do país. Com um território que corresponde a quase metade da América Latina, o Brasil ocupa uma posição estratégica na região e exerce considerável influência política e econômica.
A disputa eleitoral ocorreu em meio a tensões com os Estados Unidos, envolvendo questões relacionadas à independência do Poder Judiciário, à imposição de sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e à aplicação de tarifas elevadas sobre produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano. Esses acontecimentos acrescentaram uma dimensão internacional à já acirrada disputa política interna e intensificaram as preocupações com as pressões externas sobre as decisões políticas e econômicas do Brasil.
As medidas adotadas pelo governo Lula antes do segundo turno, com o objetivo de enfrentar possíveis interferências nas pesquisas de opinião e tentativas de influenciar o eleitorado por meio de redes digitais internacionais, também evidenciaram os desafios crescentes para a preservação da integridade dos processos eleitorais em uma sociedade cada vez mais conectada.
Para além dessas questões institucionais, a vitória de Lula reafirmou a relevância política de um estadista experiente, cujos governos anteriores ficaram associados ao crescimento econômico, à redução da pobreza e à ampliação das políticas de proteção social. Seu retorno à Presidência demonstrou a permanência de seu apelo eleitoral e sua capacidade de mobilizar diferentes segmentos da sociedade brasileira.
Seu adversário, o senador Flávio Bolsonaro, enfrentou, por sua vez, o desafio de representar uma corrente política fortemente identificada com o legado de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja trajetória foi marcada por conflitos com as instituições democráticas e por controvérsias judiciais que permaneceram no centro do debate político nacional.
A vitória de Lula, contudo, não significa o fim das divisões ideológicas no Brasil. Pelo contrário, a permanência de uma expressiva força conservadora no Congresso Nacional indica que o futuro político do país dependerá de uma convivência complexa entre um Executivo de esquerda e um Legislativo no qual a direita mantém influência significativa.
Esse equilíbrio de forças poderá dificultar a implementação da agenda econômica do presidente, especialmente no que diz respeito às políticas de apoio às camadas de baixa renda e à classe média. Em uma sociedade marcada por desigualdades persistentes e profundas divisões políticas, o governo precisará conciliar suas prioridades sociais com as restrições fiscais e as exigências de uma base parlamentar fragmentada.
O principal desafio interno, portanto, não consiste apenas em preservar o mandato democrático conferido pelas urnas, mas também em transformá-lo em governabilidade efetiva, estabilidade econômica e maior coesão social.
O retorno do Brasil ao protagonismo internacional
A reeleição de Lula também apresenta importantes consequências para a inserção internacional do Brasil.
Durante seus mandatos anteriores, o país ampliou sua presença na diplomacia internacional, fortaleceu sua participação nos mecanismos de integração regional e conquistou maior visibilidade nos fóruns multilaterais. Sob a presidência de Jair Bolsonaro, entretanto, o engajamento internacional brasileiro tornou-se mais limitado em determinadas frentes, e o país enfrentou dificuldades para preservar parte de sua influência diplomática.
O retorno de Lula abre, assim, uma oportunidade para reverter esse quadro e restabelecer o Brasil como um ator relevante na construção de consensos internacionais.
Uma maior coordenação entre a Presidência da República e o Ministério das Relações Exteriores, instituição reconhecida por sua tradição diplomática, poderá desempenhar papel fundamental nesse processo. Tal articulação será especialmente importante diante de um cenário geopolítico cada vez mais complexo, marcado pelas consequências da guerra entre Rússia e Ucrânia, pela intensificação da competição estratégica entre as grandes potências e pelo uso crescente de tarifas comerciais como instrumento de pressão econômica.
Nesse contexto, o desafio brasileiro será preservar sua autonomia estratégica sem comprometer a capacidade de manter relações construtivas com os diferentes centros de poder mundial.
A renovação do mandato de Lula amplia suas possibilidades de conduzir uma política externa pragmática e independente, inclusive no que diz respeito à recomposição das relações com Washington.
Os Estados Unidos, por sua vez, possuem razões estratégicas e econômicas para preservar uma relação construtiva com o Brasil. Por sua dimensão territorial, seu peso econômico e sua influência diplomática, o país não pode ser tratado como um parceiro secund





