Conheça arqueologia brasileira que levou o Brasil ao centro das pesquisas sobre o povoamento das Américas
Arqueóloga dedicou sua trajetória ao estudo das pinturas rupestres e à preservação do patrimônio pré-histórico da Serra da Capivara, no Piauí.
Redação Diplomacia Business
01/11/2026 · 05h22

A história da arqueologia brasileira tem em Niède Guidon uma de suas figuras centrais. Com uma carreira marcada pela pesquisa, pela formação acadêmica e pela defesa do patrimônio histórico, a cientista dedicou grande parte de sua vida a investigar os vestígios das primeiras populações humanas nas Américas. Seu trabalho projetou a região de São Raimundo Nonato, no Piauí, internacionalmente e ampliou o debate sobre a antiguidade da presença humana no continente.
Nascida em 12 de março de 1933, em Jaú, no interior de São Paulo, Niède formou-se em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), em 1959. Interessada em aprofundar seus conhecimentos sobre as sociedades antigas, seguiu para a França, onde estudou Arqueologia Pré-Histórica na Universidade de Paris-Sorbonne. Em 1975, concluiu o doutorado em Pré-História, consolidando uma formação que sustentaria sua trajetória como pesquisadora.
No início da carreira, trabalhou no Museu Paulista, vinculado à USP, e teve contato com informações sobre pinturas rupestres existentes no sudeste do Piauí. As imagens despertaram seu interesse pela região, embora as primeiras tentativas de chegar ao local tenham sido dificultadas pelas condições de viagem. Em 1970, quando já vivia na França, conseguiu visitar a área e conhecer de perto os registros que passariam a orientar suas pesquisas.
A partir de 1973, Guidon participou de missões arqueológicas franco-brasileiras e coordenou investigações que identificaram numerosos sítios pré-históricos. O trabalho de campo envolveu o levantamento de pinturas e gravuras rupestres, a análise de ferramentas de pedra e o estudo de outros vestígios materiais deixados por antigas populações. Ao longo dos anos, suas pesquisas ajudaram a estabelecer a Serra da Capivara como uma das áreas arqueológicas mais importantes das Américas.
Um dos aspectos mais debatidos de sua produção científica foi a hipótese de que a presença humana no continente americano seria muito mais antiga do que indicavam os modelos tradicionais de povoamento. As interpretações de Guidon sobre determinados vestígios encontrados no Piauí estimularam discussões entre especialistas e novas investigações sobre as possíveis rotas migratórias e a cronologia da ocupação das Américas. Embora parte dessas interpretações permaneça controversa, a pesquisa contribuiu para ampliar as perguntas e as perspectivas científicas sobre o tema.
O compromisso de Niède Guidon, contudo, não se limitou à produção acadêmica. A pesquisadora também atuou para garantir a proteção dos sítios arqueológicos diante das ameaças de degradação e da necessidade de conservação de uma área de grande extensão. Esse esforço contribuiu para a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, e para o reconhecimento internacional de seu patrimônio. Em 1991, o parque recebeu o título de Patrimônio Mundial da UNESCO, em reconhecimento à importância de seu conjunto arqueológico e de suas pinturas rupestres.
Em 1986, Guidon fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), instituição dedicada à pesquisa, à conservação e à divulgação do patrimônio arqueológico regional. À frente da entidade por décadas, promoveu iniciativas científicas e educativas, além de projetos voltados à preservação ambiental e à participação das comunidades locais. A fundação também contribuiu para a formação de profissionais e para a manutenção de estruturas de pesquisa e visitação na região.
Sua atuação aproximou a arqueologia de questões sociais e econômicas. A valorização da Serra da Capivara abriu possibilidades para o turismo cultural e para atividades relacionadas à educação patrimonial, ao mesmo tempo que reforçou a importância da conservação da caatinga e de sua biodiversidade. Dessa maneira, o trabalho da cientista associou a investigação do passado à construção de oportunidades para o presente e o futuro do semiárido piauiense.
Ao longo de sua trajetória, Niède recebeu distinções importantes por sua contribuição à ciência. Em 2024, foi contemplada com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, uma das principais honrarias científicas do país. Também integrou a Academia Brasileira de Ciências e manteve vínculo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que apoiou suas pesquisas.
Niède Guidon morreu em 4 de junho de 2025, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato, cidade à qual dedicou décadas de trabalho. Sua trajetória deixou uma contribuição duradoura para a arqueologia, para a preservação do patrimônio brasileiro e para o reconhecimento internacional da Serra da Capivara. O legado da pesquisadora permanece nos sítios protegidos, nas instituições que ajudou a construir e nas investigações que continuam a aprofundar o conhecimento sobre a presença humana nas Américas.
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